Artigo de opinião: José Baptista Pereira
A eutanásia – e a liberdade de escolher…
O tema da atualidade é a despenalização da morte assistida ou eutanásia. Apesar de muito se falar do tema, de forma mais ou menos apaixonada e desde há alguns anos, mantém-se a ideia que se tinha inicialmente. Há os que são contra porque não admitem a liberdade de alguém escolher a forma de morrer e há os que aceitam a despenalização porque entendem que a liberdade também se estende à escolha de como morrer.
E escolher a forma de morrer porquê?
Querer morrer é contranatura. A luta pela sobrevivência faz parte do código genético dos animais incluindo o homem. Contrariamente ao que romanticamente se diz, parece que os animais não se matam voluntariamente. Há sempre uma explicação possível, seja por acidente seja por defeito ou doença. O Homem também é um animal que preserva e luta pela sua sobrevivência. A seleção natural é feita à custa de terceiros, os predadores, tal como no resto do mundo animal. Parece que o homem é verdadeiramente o único animal que voluntariamente atenta contra a sua própria vida. Parece contranatura e parece ser uma falha no instinto de sobrevivência animal. Os puristas dizem que por defeito. Eu, e outros como eu, aceitamos que seja, na maior parte das vezes um ato voluntário e consciente. Um ato difícil e solitário quando a vida conscientemente deixa de fazer sentido. Um ato desesperado mas não acessível a qualquer um.
Aceito que haja quem prefira morrer a manter uma vida de sofrimento sem esperança. Pode-se morrer por omissão de cuidados terapêuticos, mantendo apenas o suporte biológico. Mas em que condições? Aceito que haja quem pense que, quando não interessa prolongar a vida quando não há esperança de cura. Quando prologar o nosso sofrimento prolonga o sofrimento dos outros que amamos e não queremos ver sofrer.
As convicções religiosas são um lenitivo para quem delas comunga. A morte é entendida como uma passagem e o sofrimento como uma penitência que se tem de aprender a viver.
Os cuidados paliativos são outra forma de amenizar esse sofrimento. O apoio psicológico aos doentes, cuidadores e familiares também ajudam a minimizar esse sofrimento. No entanto sejamos honestos. Na nossa sociedade, quem tem acesso a cuidados paliativos (eficazes e verdadeiros) e a apoio psicológico adequado?
Mas mesmo quando os há, por quanto tempo é possível mantê-lo com eficácia?
Não sou a favor da eutanásia. Não sei como se faz e não pretendo aprender. Não a promovo nem promoverei, sou objetor de consciência e continuarei a ser enquanto puder, mas compreendo que haja quem a deseje. Mas não arrisco dizer que desta água não beberei. Enquanto puder, saciar-me-ei em outra fonte. Mas não me sinto com o direito de aceitar uma Lei que imponha as minhas convicções a quem delas não comunga. Não me sinto com direito de aceitar uma Lei que condene quem tenha a capacidade (técnica e psicológica) de apoiar quem a deseje.
Sim, se o meu voto contasse, eu votaria sim à despenalização da eutanásia.
Não porque concorde ou pretenda promover ou praticá-la, mas porque humanamente compreendo que haja quem dela precise e não tenha as minhas convicções que de certa maneira me condicionam mas também me protegem.





















